Vidas em queda livre: empreendimento foi cenário do pior acidente da construção civil na Bahia

“Quero meu pai de volta. Quero tirar ele dali e levar comigo. Minha família acabou. Ô meu Deus. O que é isso? Eu preciso do meu pai. Essa obra maldita acabou com minha família. Acabou com a vida de um bocado de família”.
Aos prantos, esse foi o desespero do ex-operário da obra do empreendimento Empresarial Paulo VI, da Construtora Segura, Wellington Santana dos Santos, 27 anos, ao ver o corpo do pai no fosso de um elevador com mais oito corpos de operários que morreram  após o equipamento  despencar de uma altura de 84 metros.
Wellington ainda tentou, em vão, arrancar o  corpo do pai de dentro do elevador, mas foi retirado por policiais militares que isolaram o local até a chegada da perícia. “Tem quatro dias que eu não vejo meu pai. Eu ia ver meu pai hoje”, lamentava o ex-operário.
ACIDENTE  
Nos primeiros minutos de trabalho, às 7h05 da manhã de ontem, o destino dos nove operários culminou no pior acidente da construção civil baiana. Em fração de segundos, a dor de Wellington, ao perder o pai, o carpinteiro Martinho Fernandes dos Santos, 50, foi a mesma de mais oito famílias que perderam integrantes no acidente do elevador que caiu do 28º andar do prédio em construção. Testemunhas contaram que os gritos dos operários, durante a queda, foi desesperador.
“Imprudência da empresa, porque essa balança todo dia quebrava. A gente reclamava, mas não podia parar porque a gente precisa trabalhar. O que vou fazer agora?”, protestava o operário Washington dos Santos, 23. Ao contrário do pai, Martinho, ele não foi trabalhar ontem. “Eu estava sentindo que alguma coisa ruim aconteceria. Por isso, não quis trabalhar hoje”, disse. Os irmãos Wellington e Washington passaram mal e tiveram que ser atendidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Além de Martinho, Antonio Reis do Carmo, 62, Antonio Elias da Silva, 57, Antonio Luís Alves Reis, 55, Hélio Sampaio, 51, José Roque dos Santos, 43, Jairo de Almeida Correia, 47, Lourival Ferreira, 68,  e Manuel Bispo Pereira, 40,  também morreram no local, antes mesmo de serem socorridos. De acordo com os operários que trabalhavam no local no momento do acidente, as vítimas estavam indo para o 20º andar do prédio que está sendo construído na rua Saturnino Segura, ao lado do Hiperposto, na região do Iguatemi.
EXPLICAÇÕES
Sob circunstâncias ainda não esclarecidas, o elevador não teria parado no 20º pavimento e seguiu até o último andar, de onde despencou, após o rompimento de um cabo de aço. Antes de subir, dois operários, um deles identificado como Binho, desistiram de entrar no elevador que teria capacidade para transportar 12 pessoas.
O engenheiro responsável pela obra e também proprietário da Construtora Segura, Manuel Segura Martinez, contou que o cabo soltou após os operários subirem para trabalhar, mas que não sabia o motivo. Ele chegou a garantir que o elevador era seguro.
“A balança subiu, bateu no fim e desceu. Não tem condições de trabalhar hoje. Está todo mundo em choque. Ver os colegas mortos desta forma. Eu estava subindo e eles descendo com toda velocidade. Quando o cabo parte, não tem solução. O freio de mão só funciona quando o cabo não parte”, contou o armador José Félix de Oliveira, 55, que há 14 meses trabalha na obra.
Segundo o operário Washington Queiroz, 54, faíscas ainda saíram do cabo de aço antes da queda do elevador. “Começou a pegar fogo, parecendo um curto-circuito, e a balança desceu e descarrilou todo o cabo de aço”, contou o operário.
Durante a tarde, prepostos da empresa acompanharam a liberação dos corpos e coordenaram os sepultamentos. “Isso é pouco. Ninguém nos disse nada, nem nos ligou. Só vieram no final”, reclamou a irmã de Hélio Sampaio, Maria José Sampaio.

Corpos dos nove operários mortos em acidente são observados por colegas

APURAÇÃO
Para a titular da 16ª Delegacia de Polícia, Jussara Sousa, é preciso aguardar o resultado da perícia realizada pelo Departamento de Polícia Técnica. A previsão é que ele seja concluído em até 30 dias. Segundo ela, o elevador tinha capacidade para transportar 1.200 kg ou  12 pessoas.
“Por um problema que ainda não sabemos identificar, a balança bateu no último andar. Estamos apurando se houve culpa. Será verificado se houve negligência, imprudência ou imperícia. Caso seja constatado, os responsáveis pela obra serão indiciados por homicídio culposo”, disse.
De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Salvador (Sintracom-BA), cerca de 400 operários trabalhavam no local no momento do acidente.
Após o acidente, a obra foi interditada pela Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom) até que seja comprovado que ela não apresenta mais riscos. Segundo o responsável pelo órgão, Cláudio Silva, a obra, que contava com dois técnicos de segurança, Jadson Silva e Josevaldo Almeida Melo, era licenciada, tinha alvará e era fiscalizada com regularidade.


Construtora diz que elevador estava  vistoriado
A Construtora Segura, responsável pela obra, informou ontem que elevador que caiu foi “vistoriado há 30 dias, estava funcionando dentro dos parâmetros de segurança e em perfeito estado de conservação”. Em nota, a empresa declarou que o acidente com os nove operários, alguns com mais de 20 anos de empresa, foi uma fatalidade e assegurou que pretende arcar com os custos do enterro dos corpos.

A empresa afirmou ainda que, junto com mais de seus 500 colaboradores, está em “profundo luto”. Ontem, os nove corpos foram liberados para sepultamento, três na capital e os demais no interior. A empresa fornecerá transporte para os parentes das vítimas. Segundo o chefe de Segurança do Ministério do Trabalho, Flávio Nunes, o elevador usado pelos operários é ultrapassado.

“O projeto é ultrapassado, mas permitido por lei. Temos que impedir o funcionamento desse equipamento que, embora atenda as normas de segurança, apresenta risco de queda. Nesse caso, provavelmente, o cabo se rompeu e não tinha o freio de emergência e ele veio a cair”.  A advogada Michele Pereira, que ontem representou os parentes, disse que as famílias vão processar a empresa.

Operário já sofrera outros dois acidentes
Nascido em Irará, Vitorinha, com era conhecido Jairo de Almeida Correia pela sua paixão pelo Esporte Clube Vitória, era um sobrevivente da construção civil. Com a vida dedicada à Construtora Segura, por duas vezes já tinha resistido a graves acidentes. Há 12 anos, caiu de um elevador de um prédio em construção. Ficou três meses internado no Hospital Geral do Estado.

A família pediu que ele abandonasse o serviço, mas o amor à construção civil não permitiu. “Ele teimou em continuar. Tempos depois caiu de uma laje e perdeu parte da audição. Dizia sempre que era um Leão, igual ao Vitória. Mas, dessa vez, ele não resistiu”, disse aos prantos o irmão da vítima, João dos Reis.
Ontem, os lamentos foram muitos. Ana Paula Silva dos Reis, 24 anos, viveu ontem a angústia de palavras não ditas ao pai, Antônio Luis Alves dos Reis, que morreu na queda do elevador. “Não disse a ele que o amava. Isso dói muito. Nós nos víamos pouco, por conta do trabalho dele de domingo a domingo. Ficou esse vazio”.
No IML, parentes se assustaram com o estado dos corpos.  Flores tiveram que ser colocadas em grande quantidade sobre os corpos para cobrir as fraturas expostas. “Quase não reconheci meu irmão. Estava todo quebrado, desfigurado”, disse Renato Ferreira, irmão do operário José Roque.

Por: Anderson Sotero, Jorge Gauthier e Leo Barsan | Redação CORREIO
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