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Orientação de um velho Engenheiro de Barbas Brancas a um jovem engenheirando sobre um estágio de férias (crônica)

Por Eng. Manoel Henrique Campos Botelho

O ensino de Engenharia e Arquitetura foca bastante nas questões técnicas e legais, mas freqüentemente se esquece de que o profissional que está se formando é, antes tudo, uma pessoa que vai lidar com outras pessoas e precisa aprender a conviver neste mundo real.
Contaram-me esta história. Um jovem de nome Alberto, estudante de engenharia da nossa capital, já no terceiro passando com boas notas para o quarto ano da faculdade, foi passar férias na sua cidade natal onde ainda moravam seus pais. A cidade tinha algo como uns trinta mil habitantes, numa região pouco desenvolvida do estado.
Chegando à cidade, depois de visitar todas as tias e primos – e engordar uns quilos pelos quitutes feitos especialmente pela saudosa mãe – o engenheirando manifestou aos pais o desejo de aproveitar bem suas férias na cidade num possível trabalho-estágio ligado à futura profissão. Tentou no Departamento de Obras da prefeitura mas nada e também foram negativos os pedidos de trabalho junto à duas pequenas construtoras da cidade. A explicação da dificuldade de arranjar trabalho foi que a prefeitura, para variar, está sem dinheiro e estamos na entresafra numa região canavieira.
A dificuldade arrasou o jovem pois ele sabia da importância de aproveitar o tempo de escola para se preparar para a profissão e para a vida. Mas o que fazer se ninguém abre as portas ? Eis que avisaram ao jovem que morava na cidade um velho engenheiro de barbas brancas que talvez valesse a pena conversar com ele. Aliás, velho de barba branca é sempre um personagem presente numa crônica e, como esta é uma crônica de engenharia, o velhinho ganhou a qualificação de velho engenheiro.
Fofocas a parte, Alberto foi conversar com o bom velhinho que, na sua solidão de fim de vida, fazia tempo que não recebia visitas. O jovem Alberto e o velhinho logo estabeleceram uma conversa das boas, trocando figurinhas e falando de velhos livros didáticos de Geometria Vetorial e Cálculo Infinitesimal. Logo chegou-se ao assunto principal que era a angustia do jovem em trabalhar nos dois meses disponíveis das suas férias. Contou o jovem que o único emprego que achara na cidade era ser vendedor de balcão numa loja de roupas, de propriedade de um simpático velho turco, Seu Tanus, que oferecera o emprego dizendo de antemão:
– Nada de salário. Empregado de comércio ganha por comissão …
E completou sorrindo mostrando os dentes totalmente amarelos da nicotina dos cigarros fortíssimos que fumava sem parar:
– Empregado meu não pode faltar nunca e não ganha comissão se o cheque do cliente voltar sem fundo…
Que perspectiva frustrante! Quem desejava um emprego para usar a nobre profissão de engenheiro para a qual se preparara tanto, usar um tempo nobre para ser um vendedorzinho ganhando uns trocados, fruto exclusivamente de vendas de roupas feitas.
O velho engenheiro de barbas brancas ouviu sem discutir a angústia do jovem que desejava uma orientação sobre como solucionar a situação. Quem sabe procurar estágio numa cidade maior e distante uns trinta quilômetros… Conheceria o velhinho alguém dessa cidade maior para fazer os contatos e apresentações? Qual não foi a surpresa do jovem engenheirando com as palavras do engenheiro velhinho:
– Se eu fosse você não perderia de forma alguma a oportunidade do emprego digamos que por um mês na lojinha do Seu Tanus. Será uma oportunidade impar para você se preparar para a engenharia e para a vida. No segundo mês você procurará um estágio na prefeitura da cidade vizinha. Não perca a estratégica oportunidade agora do emprego de balconista ganhando por comissão de venda feita com cheque com fundos, como alertou realisticamente o velho turco .
O estudante não entendeu nada da orientação e exigiu uma explicação para algo tão heterodoxo, que punha de lado toda uma expectativa de usar a ciência de Minerva, a deusa protetora da engenharia. O velho engenheiro então explicou:
– Uma loja de roupa é um excelente teatro da vida. Lá se tem de forma concentrada toda a representação do que é lutar pela vida. Entrará um cliente comprador que não deseja uma roupa e é importantíssimo você saber disso. Ele quer na verdade um sonho, quer ficar melhor, mais belo, mais magro tanto para ele como para mostrar aos outros. Se você aprender a vender roupas saberá atender a esse aspecto humano de procura da felicidade e a roupa é um envoltório dessa procura de felicidade. Esse é o desejo do cliente e você tem como armas de sua guerra o seu estoque de mercadorias, os seus preços e principalmente o seu atendimento, talvez o atendimento supere em importância os dois outros fatores. Você deverá aprender a atender, procurar entender, conduzir a negociação e tornar uma pessoa feliz com os produtos que você tiver. Numa loja de confecções isso acontece dezenas de vezes por dia e portanto propiciará um treinamento altamente intensivo de relacionamento humano e comercial.
O jovem Alberto estava apreciando a conversa como uma lição de vida mas não como uma lição de engenharia que era o que ele queria, e mostrou isto ao velhinho que respondeu:
– Vamos ver a aplicação do que você pode usar com o que você pode aprender na loja de roupas do Tanus. Se um cliente de engenharia pedir para você apresentar proposta para construir uma piscina na casa de fim de semana você pode apenas achar que uma piscina é um tanque de concreto armado onde as pessoas tomam banho para aproveitar o choque térmico da diferença de temperatura entre seus corpos e a temperatura da água da piscina. Uma outra visão é entender a piscina como um local de encontro de gente que buscará através do encontro pactos de relacionamento, pactos de solidariedade e de procura de momentos agradáveis e que o banho apenas é um pretexto para tudo isso. Portanto, quando eu fosse apresentar a proposta de engenharia de construção da piscina eu entregaria junto da proposta um desenho da perspectiva da futura piscina, já mostrando gente feliz em volta dela. O desenho da perspectiva, o simples desenho da perspectiva ajuda a vender a obra de concreto armado.
Aquele exemplo abriu os olhos do jovem estudante de engenharia para um aspecto importantíssimo da profissão que é o relacionamento humano, item decisivo para o sucesso profissional. Bastou o exemplo para que o jovem se decidisse a pegar o emprego na loja de confecções e aprender todos os segredos do velho turco de dentes amarelados. Havia o problema do emprego sem salário fixo e do aspecto de regras implacáveis de trabalho como não faltar e não receber comissão quando o cheque do cliente voltava sem fundos mas isso eram regras da vida e tinham talvez razões práticas que a realidade impõe. Aliás na prática da engenharia quando um cliente paga com um cheque sem fundos o engenheiro também não recebe…
Quando ia terminar a conversa, aliás a utilíssima conversa com o solitário velhinho engenheiro, Alberto fez a última pergunta dessa visita:
– Esses assuntos que você falou de engenharia e vida, em que ano da faculdade eu vou ter essa matéria lecionada ?
Pela primeira vez o velhinho não respondeu, apenas se movimentou na sua cadeira de balanço e simplesmente e enigmaticamente sorriu…

Texto publicado sob permissão do autor:

Manoel Henrique Campos Botelho
Eng. Civil e autor do livro Concreto Armado Eu Te Amo
Email: manoelbotelho@terra.com.br
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